quarta-feira, 4 de outubro de 2023

Distinta dor

 


Uma distinta dor se manifesta agora

Nada da dor de se saber inexistente

Nada da dor da invisibilidade

Nada da dor do ser descartável.


Mas uma dor pungente 

de nada ser verdade,

de nada ser real,

de nada ser nada

e nada ser.


De ter imaginado,

de ter sentido, mesmo sem sentido

de ter sonhado sonhos tão reais

embora a realidade

nunca tenha sido sonho.


E do nada esta dor incansável

a controlar meu peito

a me abater

a prostrar-me em um chão qualquer

E ainda seguir sendo a mesma dor

Essa dor intransponível

da qual ainda dependo para saber de ti

tão longe de ti, tão longe daqui

E nunca aí... só a mesma dor.




Inconcebível

 


Haverá alguma lembrança?

Pergunto-me a todo momento,

pois para mim é inconcebível

Tanto sentir

ser 'nada'.


Tanto 

Se transformar em nada

Por ninguém ser visto.

Nenhuma dor percebida 

em milhões de lágrimas derramadas

E nem lembrança habitar

Sim, é inconcebível.

Ainda, ainda, ainda...

 


Ainda aguardando a costumeira hora

de te falar

Não há mais esse horário

Não há mais você a me falar

Não há mais o que falar

Não há mais nada do que foi


Não há mais nada,

onde nada foi.

De mim

 A saudade devora 

o que 

resta de mim

E nada a aliviará, 

pois 

não estou mais aí...


Nunca estiveste 'aqui'.


Agora uma rota obstruída

Outro desconhecido.


E lágrimas impedem

que se veja o mapa,

e mesmo que olhasse

não há mais direção 


A rosa dos ventos foi

 impudentemente  danificada,

Depois  esquecida...

E aquele imã

perdeu o  campo magnético

E ninguém notou...


Não vejo mais... 

 também não localizo a dor 

da tua ausência

(tudo dói),

dói-me a certeza de que só eu vivi

o lamento do fim.


E daqui, 

não vejo horizonte.


Tenho que secar 

minhas próprias lágrimas

Recuperar a visão

Olhar em diversa direção

mesmo em prantos...

A viver



Quantas vidas nunca vistas,

nunca observadas,

nunca valorizadas

perecem num deslizamento?


Dentro de mim, observo

Vejo a a gonia de todas elas...

Que foram lançadas

ao caos sem sequer se 

darem conta

da iminência da sucessão

de terra no soterramento,


Até que por fim

cessam de respirar

E toda dor e agonia

cessam

Dramas aliviam

Desfaz-se o peso que sufoca

Alivia a dor

Destrõem o que há 

E tudo o que dali nasceria...


E nada mais a viver

 

Ainda assim

 

Transitei em ruas escuras

Saí no silêncio,

 sequer um ruído

Via tua urgência ...


Ainda assim tantas vezes

Vigiei teus sonhos

- onde nunca estive.


Se chamavas,

eu seguia sem critérios

sim e sempre...


Idas e vindas tantas...

Idas repletas de expectativas, 

de alegria incontida e genuina,


vindas repletas de dor,

de lágrimas, de feridas.


E ainda assim, 

Só cessei meus passos

diante de te tuas duras palavras 

"o que vivo só interessa a mim".


- Meu coração ao chão foi lançado,

 já tão pisoteado...

tão dolorido,

tão sofrido.


Juntei as partes que enxerguei

e mais uma vez 

E de lá até aqui

Tentando juntar partes...


Nunca saberás

O tanto que ruí...

 

Quanto tempo dei

Quanta atenção

Quantas flores

Quanto de mim se esvaiu

Enquanto te escutava?


Quantos passos dei

Quantas lágrimas derramei

Quanto de mim esqueci

Quanto sobrou

do que fui?


E nada disso importa

nada disso importou...

Eu 'aí'  nunca estive...


Nunca ouviu

Nunca chorei

Nunca falei

Nunca me viste


Kintsugi

 


Comigo, contigo

com tantos que emergiram

do caos para se reconstruir

será uma  mesma onda de renovação...

Agora, entender

o novo panorama,

o que comporá

 a nova vida

repleta de possibilidades...


Aos poucos ergo o que sobrou inteiro

Ao despedaçado

aplicarei o 'kintsugi'

algumas imperfeições tem que ser aceitas

outras valorizadas.


O vivido nunca retorna,

mas podemos fazer melhor...

O mundo pode ganhar

se o que for emendado 

reluzir no final...

até sorriso é restaurado...

Enfim um aceite

 

É regra se livrar da dor

Enfim compreendi o  volume, o calor, 

a força necessária para 

contruir o novo.

Enfim aceitei que era imperativo

um novo olhar

um novo horizonte,


A compreeensão de que 

sobre tudo é possível

cultivar algum valor.


Um valor sobre a própria vida 

que se refaz

com renovada força

sob nova perspectiva

e nova luz

E ainda eu,

Enfim um aceite

Levanto.


A lava jorra

 



A lava jorra 

e encobre terras seculares

Em mim também jorrou

Essa dor aquecida pelo peso de 

tantas lembranças do que sonhei

e não vivi,

e eram sonhos, pode-se dizer seculares

Eram tantas as dores seculares e não curadas,

tantas feridas,

e expostas.


Deixei escorrer livremente

Desceu primeiro em profusão escaldante,

derrubando tudo

o que estava no caminho,

tudo esperando ser

derrubado.


Tudo a lava de dor

derrubou.

Coisas velhas, desgastadas

em pé pela força do hábito,

Tudo lançado ao solo

e encoberto pela lava quente,

lava amiga

ao se espalhar

desenhou nova paisagem.

No inicio rejeitada

- criada pelo caos

da lava flamejante,

assustadora e necessária

A derrubar, a criar no caos que 

espalhou...

Abro a janela

 


Olho e vejo o vazio

Nada em toda direção

Forço-me a outros caminhos,

A outros olhares

Forço-me a olhar para frente

Mas meus olhos estão cegos por tantas lágrimas

Da imensa tristeza

Que se tornou o momento,


Ainda assim, abro a janela...

Sigo





Quando a dor acalma

O corpo está esgotado

Esgotada está a esperança

Esgotada a vontade,

Esgotado todo meu ser


E, ainda assim

Tem que levantar

Por um pé ante o outro pé

E seguir,

Mesmo que no vazio


 

E depois...

 E depois... Sigo com a dor, quiçá findável Dor de um sonho acabado De um desejo destroçado De um vida nunca vivida De possibilidades que ja...