Certa vez,
ganhei um beija-flor
Sim, um beija-flor,
Não era de verdade
Era uma peça de madeira encantadora
Um porta-guardanapos verde
cujo bichinho tinha o rabo quebrado
Nem bem olhei e me encantei
Coloquei-o no alto da
estante de livros,
lugar mais nobre não
poderia encontrar.
Mantive-o ali por meses, anos...
empoeirando-se e me encantando,
Merecia um olhar
todo dia,
um novo encantamento.
Eventualmente,
descobria pequenas falhas,
Leves rachaduras na pintura,
falhas que também me encantavam.
Um dia o encanto se fez raiva, decepção e dor
Peguei o frágil beija-flor
martelei-o em tantas
e quantos pedaços
foi-me possível
O beija-flor já não mais existe,
Não existe o que me encantava,
Hoje existe a lembrança
do que se foi.
Pobre beija-flor de madeira,
Pobres lembranças, fruto do encantamento
despedaçados.
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