quinta-feira, 14 de abril de 2022

O presente delicado



Certa vez,
ganhei um beija-flor
Sim, um beija-flor,
Não era de verdade

Era uma peça de madeira encantadora
Um porta-guardanapos verde
cujo bichinho tinha o rabo quebrado

Nem bem olhei e me encantei

Coloquei-o no alto da
estante de livros,
lugar mais nobre não
poderia encontrar.

Mantive-o ali por meses, anos...
 empoeirando-se e me encantando,

Merecia um olhar
todo dia,
um novo encantamento.


Eventualmente, 
descobria pequenas falhas,
Leves rachaduras na pintura, 
falhas que também me encantavam.

Um dia o encanto se fez raiva, decepção e dor

Peguei o frágil beija-flor
martelei-o em tantas
e quantos pedaços
foi-me possível

O beija-flor já não mais existe,
Não existe o que me encantava,
Hoje existe a lembrança
do que se foi.

Pobre beija-flor de madeira,
Pobres lembranças, fruto do encantamento
despedaçados.

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